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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A Poemúsica de Paulo César Pinheiro

Não acontece todo dia. Conhecer, apertar a mão e trocar algumas palavras com alguém que você admira, que você lê, que você canta, que você reflete com suas palavras e versos. Foi assim pra mim, quando estive no lançamento do livro Poemúsica, do escritor, poeta, compositor, Paulo César Pinheiro. (foto de Cristina Lacerda).


Eu, tietando, Paulo Cesar Pinheiro. foto: @cristinalacerdafotografa


Eu não compro jornal diariamente, ainda mais  agora, quando as notícias não me atraem e me assustam. Mas naquele dia eu passei na banca perto de casa, comprei o meu JB e segui para pegar o metrô. No vagão, abri o jornal e no Caderno B, página inteira, estava uma grande reportagem sobre o Paulo César Pinheiro. Falava sobre o seu trabalho e sobre o seu aniversário de 70 anos, no ano que vem. Destacava que ele estava lançando um livro novo, de poesia, que em breve algumas daquelas páginas deveriam se transformar em músicas, que o nome do livro é Poemúsica, e que o lançamento seria naquele mesmo dia, na livraria Blooks, pertinho da minha casa!


Poemúsica, editora 7 Letras.


Programa agendado na hora. Sair do trabalho às 18h30 no máximo, pegar o metrô ou o ônibus, chegar no início do evento, comprar o livro e garantir um autógrafo.

Antes que você fique se perguntando porque tudo isso com esse autor, veja o nome deste blog e da minha página no facebook: Vem Vindo uma Melodia. A frase é um verso da música Poder da Criação, composta por ele e João Nogueira. Ou seja, sou seu fã declarado e por sua poemúsica fui inspirado a criar esses ambientes virtuais de versos e melodias.

Como eu já escrevi em outra ocasião, não há sambista que não tenha bebido dessa fonte. Ele tem mais de 1.300 músicas gravadas. Aliás, não consigo imaginar como isso é possível. Tem livros de poesia, peças de teatro e dois romances publicados. É o poder da criação materializado e perpetuado. E suas músicas não são essas batidinhas fáceis ou sambinhas de rimas bobas, como alguns que estou me aventurando a compor meio que escondido. Estou falando de samba poesia, de sentimento, de protesto, de exaltação, de reverência, de tudo ou quase tudo.

É a cultura popular se manifestando e conquistando espaço em vozes de muitos artistas que as gravaram ou que compuseram com ele: João Nogueira, seu grande parceiro, Clara Nunes, sua companheira que partiu tão cedo (Voa meu sabiá, até um dia!), Baden Powell, Elis Regina, Simone, Dori Caymmi, MPB4, enfim, não dá para enumerar. E gerações mais novas também entraram de sola nessa seara, gravando suas músicas, como é o caso de Diogo Nogueira, Teresa Cristina, Ana Costa, Casuarina, Seu Jorge, Nilze Carvalho...

Para ouvir algumas das músicas dele, veja nas referências, ao final deste texto, a playlist que eu fiz no Spotify, com uma pequena seleção de dez canções: Portela na Avenida, Saudades da Guanabara, Súplica, EspelhoCordilheira, Juparanã, Chorando pela Natureza, Minha Missão, Poder da Criação, O dia em que o morro descer e não for Carnaval.

Mas vamos voltar ao livro, à noite de autógrafos e tudo o mais.

Cheguei na livraria, comprei o livro e entrei na fila, pensando no que dizer a ele. Em um papelzinho colocaram o meu nome, ou seja, nem isso ele ia precisar falar comigo. E a foto? Tirar uma "selfie"? Sem coragem, pois sou muito tímido. Pensei em pedir a alguém da fila. Ah timidez que me prende! Chegou a minha vez. Avancei, cumprimentei, ele escreveu a dedicatória e eu então consegui falar mais ou menos isso: eu fiz um blog amador, inspirado na sua música blá blá blá e pronto, calei. Ele sorriu, agradeceu, posou para a nossa foto (tinha uma fotógrafa!) e desejou sucesso para o blog.


Livro autografado


Próxima tarefa: conseguir aquela foto. Conversei rapidamente com a fotógrafa Cristina Lacerda que estava fazendo a cobertura do evento, ela me apresentou ao George Patiño, da assessoria de imprensa do autor. Conversamos e combinamos que ele me enviaria a foto depois (e assim ele fez). Saí dali feliz da vida, e fui direto para a minha aula de cavaquinho. Essa vida de aprendiz de sambista é divertida!

E o livro? O livro é maravilhoso. Abordando sentimentos de todas as formas, é um convite à reflexão e uma fonte de inspiração. Muito amor, muita fé e muita coragem em suas páginas.

Na contracapa está o poema que eu reproduzo aqui:

Canto de Lembrança 
A lembrança sempre vem à noite,
Toma a mente, depois vem pro peito.
Chega fraca depois vira açoite
Machucando o coração de jeito
 
É difícil de conter o pranto
Se a lembrança é de um amor desfeito,
Que a tristeza lembra sempre um canto
De lembrança que antes já foi feito.
 
A saudade encosta o barco, mansa
E por dentro a água do mar me invade.
Minha alma é a rota da lembrança.
Minha vida é o porto da saudade.

Mas o poema que eu mais gostei, está logo nas primeiras páginas do livro. Ele aborda o susto, o alarme, o espanto com a violência e a maldade. Me lembrou uma de suas músicas, Cordilheira, eternizada na voz da Simone, na qual ele quer descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente. Mas nesse poema, Cultivo, ele quer cultivar uma semente, a esperança. Eu também.

No vídeo a seguir, eu faço a leitura desse poema, Cultivo, que me emocionou e com o qual eu me identifiquei. Não deixe de assistir.



#PauloCesarPinheiro #Poemúsica #7letras #poemas #poesia #música #mpb #samba #Cultivo

Referências:


Paulo Cesar Pinheiro Top10, playlist:

https://open.spotify.com/playlist/387hfhpW4Zi1eCDn2Xt2wT

Paulo César Pinheiro: Os recânticos de vários caboclos. Jornal do Brasil:

https://www.jb.com.br/cultura/2018/11/954299-entrevista--paulo-cesar-pinheiro-os-recanticos-de-varios-caboclos.html

O Poder da Criação. Vem vindo uma Melodia:

https://vemvindoumamelodia.blogspot.com/2017/01/o-poder-da-criacao.html

Paulo Cesar Pinheiro, compositor e poeta brasileiro. Vem vindo uma Melodia:

https://vemvindoumamelodia.blogspot.com/2017/04/paulo-cesar-pinheiro-compositor-e-poeta.html

Instagram:

Paulo Cesar Pinheiro, oficial: @paulocesarpinheirooficial

George Patiño, Assessoria de Imprensa: @georgepatino0209


Cristina Lacerda, fotógrafa: @cristinalacerdafotografa

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Gonzaguinha, o eterno aprendiz - espetáculo musical

No início de novembro, fiquei sabendo que o espetáculo estava novamente em cartaz e como eu estava no centro da cidade, corri até o Teatro João Caetano, para garantir o meu ingresso.

Mas quando cheguei no teatro, dei de cara com a bilheteria fechada.  Bom, da vez anterior fiquei esperando uma desistência que não aconteceu e voltei frustrado para casa. Mas dessa vez estava no início da nova e curta temporada e decidi não desistir.



O cartaz que estava na porta do teatro dava todas as dicas para a compra dos ingressos, com o horário de funcionamento da bilheteria, com o site do Ingresso Rápido ou... com reserva pelo WhatsApp. E foi o que eu fiz, ainda que meio desconfiado. Reservando pelo zap é mais barato!



Mais tarde recebi a confirmação e lá fomos nós para o show. E que show!

Uma banda incrível com os músicos Rafael Toledo (Guitarra, violão e voz), Alcione Ziolkowski (bateria), Omar Fontes (teclados), Buga Júnior (sax, flauta e cavaquinho) e Dudu Dias (baixo), acompanhada pelos cantores Paulo Francisco ‘Tutuca’, Bruna Moraes e Nathallie Alvin, se revezando no vocal.

E o ator Rodrigo Silvestre, interpretando o Gonzaguinha, contando a história de sua vida e de suas músicas. Entre as falas, as músicas; os seus maiores sucessos. Um formato diferente, simples, mas eficaz para quem vai querendo música e recordação.


A força da história do querido e saudoso Luiz Gonzaga Júnior serve como um fio condutor emocionante. E a vinculação da sua vida com as suas músicas foi feita com muita propriedade, valorizando a poesia das composições, que falam de amor, de paixão, de revolta, de resistência e de esperança. E a vida? E a vida o que é, diga lá meu irmão?

O repertório do show passa por cerca de 16 músicas, entre elas, Começaria tudo outra vez; Diga lá, coração; Grito de Alerta; Não dá mais pra segurar; É; E vamos à luta!

Suas músicas estão presentes em nossas vidas até hoje, pois expressam de forma direta e clara os sentimentos que são perenes. Vejam nesse trecho, por exemplo, da música E vamos à luta, observando a sua atualidade:


Eu acredito é na rapaziada / Que segue em frente e segura o rojão / Eu ponho fé é na fé da moçada / Que não foge da fera e enfrenta o leão / Eu vou à luta com essa juventude / Que não corre da raia a troco de nada / Eu vou no bloco dessa mocidade / Que não tá na saudade e constrói / A manhã desejada

Tudo se encaixou perfeitamente naquele show, até mesmo o teatro, o mesmo Teatro João Caetano no qual Gonzaguinha participou de festivais de música no início de sua carreira.


Teatro João Caetano, Rio de Janeiro
Bom, coloquei aqui um link para o álbum Bis, uma coletânea disponível no Spotify, para você escutar Gonzaguinha agora, pois não sei se vai dar tempo de você ir no show, se o show vai passar pela sua cidade ou se você vai correr atraś dele por aí. Enquanto isso vai escutando por aqui!

Gonzaguinha Bis 2 CDs - 28 músicas:



E no vídeo abaixo, um pedacinho do final do show, que, obviamente, tinha que ser com esse hino de alegria e esperança, com a participação entusiasmada do público. O que é, o que é?




segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Música ao vivo na Feira da Glória

A Glória é um bairro tradicional da cidade do Rio de Janeiro, que está na história e nas crônicas da cidade, com várias referências conhecidas do público. Entre elas, por exemplo, a Igreja do Outeiro da Glória, a Marina da Glória, o relógio da Glória, o Palácio São Joaquim ("Casa do Bispo"). Além de estabelecimentos comerciais antigos e tradicionais, como os restaurantes Taberna da Glória, Vila Rica e Casa da Suíça.

O bairro é predominantemente residencial, apertado entre a Lapa e o Catete, ou seja, em uma localização privilegiada, ainda mais com a Estação do Metrô que leva o seu nome.


Música ao vivo, na Feira da Glória

Mas de todas essas referências, a que me faz escrever esse texto é a Feira da Glória. A feira livre que é realizada aos domingos, ao longo da Avenida Augusto Severo e terminando (ou começando) no Largo da Glória. E é exatamente no Largo da Glória que eu estava em um domingo, acompanhando mais uma apresentação dessa gente maravilhosa: os músicos que tocam nas ruas e praças. No entorno de uma banca de cerveja e bolinhos de bacalhau (Bacalhau do Mazzaropi), lá estavam o Reinaldo e seus amigos, voz, violão, cavaquinho e percussão eletrônica alegrando o povo que sentado ou em pé, cantava junto, dançava, sorria e aplaudia aquele repertório alegre. Quem quisesse e pudesse colaborar, colocava sua contribuição ali mesmo, mas a música era pra todos.


Erika e a sua voz de uma grande sambista

Na informalidade da rua, e nos imprevistos, de repente chegou a Erika, para dar uma canja e ali ficou por um bom tempo surpreendendo os passantes e os ficantes com sua voz firme, mandando bem no samba, com um repertório de primeira. Coloquei uma pouquinho dessa experiência no vídeo abaixo. Mas só um pedacinho, pra você ficar com vontade de passar por lá e ver quem estará se apresentando.

Já escrevemos aqui várias vezes sobre os músicos que também tocam e cantam nas ruas. E vamos continuar registrando esses artistas geniais e corajosos, que a gente encontra sem querer e depois sempre quer mais.



No vídeo, a interpretação da música de Mauro Duarte, que fez sucesso na voz de Clara Nunes:

Lama

Pelo curto tempo que você sumiu
Nota-se aparentemente que você subiu
Mas o que eu soube a seu respeito
Me entristeceu, ouvi dizer
Que pra subir você desceu
Você desceu

Todo mundo quer subir
A concepção da vida admite
Ainda mais quando a subida
Tem o céu como limite

Por isso não adianta estar
No mais alto degrau da fama
Com a moral toda enterrada na lama

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente.

Sei que uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente!

Essa música está na memória de todos nós com a voz de Elis Regina. Mas seus autores são João Bosco e Aldir Blanc. No vídeo que segue depois da letra, João Bosco toca e canta esse sucesso em um show. Na verdade, quem canta e se emociona é a plateia. E eu, ao reproduzir aqui esta poesia. Viva a música!



O bêbado e a equilibrista

Caía
A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

A lua
Tal qual a dona de um bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!

Louco
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil

Que sonha
Com a volta do irmão do henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete

Chora
A nossa pátria, mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

Mas sei
Que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente:
A esperança
Dança, na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar



Referência da imagem:

domingo, 7 de outubro de 2018

Cálice, Cale-se


Cálice (Cale-se)
(Chico Buarque e Gilberto Gil)

Linda interpretação dessa música pelo MPB4, em um show realizado este ano no Teatro da UFF - Universidade Federal Fluminense, em Niterói, RJ.

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue


Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça